Pintar direto por cima: o que a parede antiga precisa provar

Na maioria das casas, sim. Tinta nova sobre tinta velha inteira é a repintura mais simples que existe: sem massa, sem selador, e o trabalho pesado é proteger o piso. O que decide é o estado da película antiga, verificado num canto atrás da porta ou abaixo do interruptor.

Primeira condição: a tinta velha está presa. Risque com a unha ou com a borda de uma moeda. Se fica só um risco fino, está aderida. Se levanta uma lasca que puxa mais tinta junto, isso já saiu do território da repintura: é parede descascando, e o preparo é outro.

Segunda: ela não solta pó. Passe a palma da mão aberta e olhe. Pó branco na mão é tinta calcinada, película que perdeu a resina e virou giz. Cor saindo no pano úmido é tinta fraca demais para segurar outra por cima (PVA antiga de baixa qualidade, cal). Nos dois casos a tinta nova até cobre, mas fica presa no pó, não na parede.

Terceira: ela é fosca. Encoste a cabeça perto da parede e olhe em direção à janela. Se a superfície devolve reflexo, é acetinada, semibrilho ou esmalte, e tinta aplicada direto sobre esse brilho forma bolha ou descola no primeiro móvel que encostar.

Três degraus de preparo: pano, lixa, fundo

Degrau um, tinta firme e fosca. Pano úmido bem torcido para tirar poeira e marca de mão; lixa fina passada de leve em toda a área, para abrir poro e derrubar grão, não para tirar tinta; pano de novo para recolher o pó. Pó de lixa esquecido na parede é a causa mais frequente de tinta nova áspera. Selador não entra aqui: ele existe para reboco e massa que bebem tinta, e a tinta velha já fez esse papel.

Degrau dois, brilho. A lixa deixa de ser leve e passa a ter meta: a parede precisa ficar fosca por igual, sem ilha brilhante, conferida de novo contra a luz. Sobre esmalte sintético o lixamento sozinho costuma não bastar para uma tinta à base de água ancorar, e entra um fundo antes; qual fundo, pergunte na loja descrevendo a tinta antiga. O pó dessa fase é fino e gruda.

Degrau três, pó na mão. Escove a parede inteira com escova de cerdas ou vassoura de pelo até parar de soltar, recolha o pó e aplique fundo preparador. É ele, e não o selador, que penetra e dá liga ao que sobrou da tinta antiga; a diferença entre os dois está no guia selador ou fundo preparador. Com o fundo seco, a parede passa a se comportar como tinta firme.

Furo de quadro, remendo de massa e faixa do sofá

Parede já pintada raramente está lisa de verdade. Tem furo de bucha, trinca de retração fechada com massa, uma faixa na altura do encosto do sofá polida pelo atrito. Cada ponto desses reage de um jeito à tinta nova e aparece na primeira demão.

Furo e remendo: massa corrida no ponto, lixa rente, pano. O remendo seco absorve mais tinta que a tinta velha em volta, e a primeira demão some nele, deixando uma mancha opaca. A saída é uma demão só no remendo, secar, e só então a parede inteira.

Faixa polida por atrito (sofá, cabeceira, cadeira que encosta) é brilho local: lixamento do degrau dois só ali, até igualar com o resto.

Manchas: mofo precisa sair antes, porque cresce de novo através da tinta nova. Caneta, fuligem de fogão a lenha ou ferrugem de prego atravessam tinta comum e reaparecem; esse caso pede um fundo específico, pergunta para fazer na loja antes de comprar a tinta. Gordura de cozinha tem preparo próprio.

Mesma cor, tom vizinho ou cor oposta: o que muda na tinta

Repintar na mesma cor é o cenário em que a tinta velha trabalha a seu favor: ela já é o fundo da cor certa, e a nova só precisa uniformizar. Tom vizinho (bege para bege, cinza claro para cinza médio) se comporta quase igual.

A conta muda quando a cor atual é forte e a nova é clara: o escuro transparece e pede demãos a mais, às vezes um fundo branco antes, caminho que tem guia próprio em parede escura com cor clara. E muda no sentido contrário, que surpreende mais gente: parede branca recebendo vermelho, amarelo ou laranja. Esses pigmentos cobrem menos que um neutro, e o branco segue transparecendo nas listras do rolo por mais demãos do que se espera. Quem vai de branco para vermelho compra tinta contando com isso.

Para qualquer cor, demão se decide olhando a parede seca contra a luz: se aparece a emenda do rolo ou a cor antiga por baixo, falta demão.

Placa, bolha e mancha que seca e volta: a parede pede obra, não demão

Três sinais durante o preparo mudam o plano. O primeiro aparece na lixa: se a lixa leve, em vez de soltar pó, levanta a tinta velha em placa, a aderência da pintura anterior acabou, e a parede é caso de raspar até a base firme, não de repintar.

O segundo é bolha estufada com a tinta velha inteira por cima, em geral perto do chão, do banheiro ou de uma parede que dá para fora. Bolha assim se forma com água empurrando a película, e tinta nova estufa junto. Antes de pintar, alguém precisa achar a origem: se for tubulação, é serviço de encanador; se for parede externa, de quem vai refazer o reboco ou a vedação daquele ponto. Tinta nenhuma impede a água de continuar empurrando.

O terceiro é a mancha escura que o pano limpa, seca, e dias depois está lá de novo. Mesmo caso: origem primeiro, tinta depois.

Sobra a maioria das paredes, as que provaram firmeza, limpeza e ausência de mancha. Para essas, se a lata da pintura anterior existe, o rótulo diz se era PVA, acrílica ou esmalte, e isso define o degrau de preparo antes de encostar a lixa.

FAQ

Tinta acrílica pega em cima de PVA antiga?

Pega, desde que a PVA esteja firme e sem soltar pó: pano, lixa leve e tinta. PVA velha que deixa a mão branca precisa de fundo preparador antes da acrílica.

Dá para pintar em cima de tinta de cal?

Não direto. A cal vira pó sob a tinta nova e ela descola. Escove até parar de soltar, aplique fundo preparador e só então a tinta.

Preciso lavar a parede inteira com água antes de repintar?

Não. Pano úmido bem torcido resolve poeira e marca de mão; água em excesso encharca a tinta velha e atrasa o serviço. A exceção é cozinha com gordura, que tem preparo próprio.